Há quase 10 anos à frente do Centro de Políticas Sociais (CPS), criado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) para estudar aspectos sociais da população brasileira, o economista Marcelo Neri perdeu a esperança de acreditar em avanços generalizados nos indicadores do Brasil. Contudo, afirma ter visto, repentinamente, o País acordar, a pobreza tombar e a desigualdade cair.
Em entrevista ao Jornal do Brasil deste domingo, o economista defende o programa de transferência de renda do governo federal. "Como podemos ser contra o Bolsa Família?", afirma. Confira abaixo trechos da entrevista.
Os últimos indicadores da Pnad de 2008 mostram um País em evolução, mesmo que lenta. O senhor está otimista para os próximos anos?
Eu sou bastante positivo. Temos programas como o Bolsa Família e o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb) que são iniciativas da sociedade, não de partido. O grande sucesso que o Lula está tendo vem também das semelhanças, da continuidade do governo Fernando Henrique Cardoso, seja do ponto de vista da política econômica, seja pelo lado social. O próprio Ideb é uma continuação de coisas que o Paulo Renato (ex-ministro da Educação do governo FHC) começou em 1995. Há melhora consistente de tudo que aconteceu nos últimos sete anos. Se o cenário continuar, se a queda de desigualdade nesses próximos sete anos acontecer de novo, mesmo sem crescimento, a pobreza vai cair 18%. Se crescermos 4% per capita ao ano, o que não é muito, a pobreza cai 43%, quando a meta mundial do milênio é cair 50% em 25 anos. Então não sou um otimista, sou um otimista condicionado. Se fizermos a coisa certa, teremos um país diferente.
O presidente Lula disse que pretende criar uma lei para juntar todas as políticas sociais. Seria como uma Consolidação das Leis Sociais, a CLS. Como o senhor avalia essa intenção?
A ideia de consolidação dessas leis me parece boa, mas talvez pudéssemos usar um outro nome. CLS não me agrada muito. Quem sabe uma Lei de Responsabilidade Social, em vez de um nome mais antigo como esse. Não teria tanto medo de retrocesso, pois o próprio começo do governo Lula é um exemplo de que havia uma série de programas sociais vindos do governo Fernando Henrique, que foram importantes, como o Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, o Vale Gás. No primeiro ano de Lula, quando ele anunciou o Fome Zero, deu um passo atrás na política social. Mas, seis meses depois ele percebeu e mudou de estratégia. Nove meses depois da posse, ele já tinha o Bolsa Família, que é um Bolsa Escola 2.0.
O Fome Zero foi um erro do governo Lula?
Sim. Em 2001, já tínhamos lançado o "Mapa da Fome". Portanto, o Fome Zero já nasceu velho, antiquado, pouco efetivo. Mas, ao mesmo tempo, teve uma missão positiva, pois todos os programas que nasceram errados, como o Fome Zero, o Primeiro Emprego, o Soldado Cidadão, caíram, enquanto o Bolsa Família, o Ideb, as boas ideias, esses têm apoio até internacional. A sociedade também ajudou o governo a amadurecer nesse sentido, que fez bem em ouvi-la. Há uns anos, não tinha essa visão tão positiva. Hoje tenho. Acho que as coisas boas prosperaram e as ruins, não. Isso é um amadurecimento brasileiro.
O senhor vê alguma semelhança histórica entre a possível criação dessa CLS do Lula com a CLT, de Getúlio Vargas?
Se fosse identificar o Lula com algum político brasileiro, seria mesmo com Getúlio Vargas. Mas acho que a CLT teve um pouco a inspiração na época no código do trabalho do Mussolini (ex-ditador italiano). Mas tudo depende de como é feito. Considero que há um enorme potencial. Mas, como se diz, o diabo mora nos detalhes. Hoje, nós temos uma excelente defesa macroeconômica, um excelente ataque social, mas está faltando esse meio de campo que integra as políticas sociais. Tão importante quanto integrar as políticas sociais entre si, é juntar as pontas das políticas sociais e econômicas entre elas. Por exemplo, a qualidade de educação é uma política social, mas é altamente importante do ponto de vista de competitividade no trabalho.
As políticas sociais do governo Lula estão sendo exportadas? Há uma nova ordem nesse sentido?
Vejo que o fluxo de tecnologia social tem se invertido no mundo. Aqui no Brasil um programa muito bem sucedido e premiado é o CrediAmigo, no Nordeste, que é uma inspiração do Grameen Bank (de Bangladesh - vencedor do Prêmio Nobel). Ajudei a trazer esse programa ao Rio de Janeiro. Outro exemplo é o Bolsa Família, que já existe no México, está dominando a América Latina e também tem algo parecido em Nova York. No ano passado, estive na Índia e eles queriam ouvir sobre o programa. É um programa que usa 4% do PIB e atinge 25% da população. Como podemos ser contra? Não vai resolver o problema do País, mas claro que ajuda. Há uma nova geração de políticas sociais que está surgindo. E acho que é importante criar o Bolsa Família 2.0, mais moderno. Ou seja, buscar a modernidade desses projetos. Às vezes, ficamos presos em conceitos antigos, temos dificuldades de substituir o que não é bom. Temos que ser mais racionais, sem perder a ternura. Precisamos manter esse foco no futuro, nas inovações. Desde o começo da década, de 2001 a 2008, vimos a redução das desigualdades em todas as Pnads, o que é um fato inédito. Os 10% mais pobres tiveram crescimento de 72%; os 10% mais ricos subiram 11%. O fim da pobreza não é uma utopia, é algo que está ao nosso alcance.
Que outras políticas sociais o senhor pode citar como positivas?
Temos alguns in em políticas sociais, como incentivos, informação, infância. Precisamos investir na chamada primeira infância, que é tudo que a política social brasileira não faz. Fazemos o oposto, deixamos a pessoa viver durante anos na miséria e chega no fim da vida, damos uma bolsa, um salário mínimo, que deixa a pessoa melhor de vida já no fim dela. É muito mais barato investir na saúde da primeira infância, na educação dela. E muito mais eficaz. O Brasil precisa acordar para isso. Temos uma revolução de qualidade em curso. Mas se vai acontecer ou não, só o tempo vai dizer.
Por que essa ênfase na primeira infância?
Porque investir numa criança com 4 anos é bom, melhor do que com 8 anos. Mas com 4 meses é ainda melhor. A criança ainda está se formando. Por que uma criança pobre tem que ter desempenho pior do que a não pobre? Porque há uma convenção social, um background social que não favorece. Tem que colocar (a criança) na creche, na escola, em pré-escolas que as estimulem. Tem estudos que mostram que programas de pré-escola diminuem a metade as taxas de criminalidade no futuro. E custa muito mais caro você prender ou prevenir com policiamento. O Brasil de vez em quando acorda para umas questões. Vivemos na onda educacional um começo no Ensino Fundamental, no Médio, no Superior, mas acabamos deixando para trás essa agenda de pré-escola, que é a mais efetiva.
Recentemente o senhor escreveu que político não investia em educação porque criança não vota. Acha que essa situação já melhorou?
Ainda não. Tivemos pesquisas recentes que mostraram que a educação está em 7º lugar na prioridade até das pessoas. Acho a causa da educação frustrante, porém é mais importante do que frustrante. Mas acho que metas como a do Ideb podem fazer o brasileiro reagir bem. Se der um desafio bom ao brasileiro, ele atende, mas temos que se mobilizar, que explicar. Éramos os recordistas de inflação, enfrentamos e superamos. Tínhamos o apagão do setor elétrico e também passamos por isso. Mas não basta um bando de pessoas que se sentem iluminadas e tentam vender a educação como uma coisa meio Poliana, que não é. Ir para a escola é duro, você tem que sentar, estudar, mas o jovem precisa saber que a educação no Brasil dá um retorno altíssimo. Podemos vencer todas as batalhas de educação de qualidade, com bons professores, computador na escola, metas de ensino, mas vamos perder a guerra se não convencermos o jovem e os pais dele de que educação é fundamental.
Em 2039 seremos cerca de 222 milhões brasileiros, que vivem mais. Ao mesmo tempo, há cada vez mais gente entrando no mercado de trabalho. Esse quadro pode gerar desemprego?
Demograficamente, o Brasil ainda vive um período que não vai durar muito tempo - vai até 2020, de uma população jovem que está chegando aos 30. Esses vão deixar de serem jovens daqui a pouco, e perdemos essa oportunidade demográfica. O Brasil aproveitou pouco até agora. Agora, a população idosa está crescendo três vezes mais que o resto da população, mas a população jovem ainda consegue sustentar o sistema previdenciário. Vejo que teremos um problema de sustentabilidade na previdência a longo prazo. Nos últimos anos, a economia veio crescendo bem, a formalização veio crescendo, mas não sabemos se por razões estruturais teremos problemas. Iria com mais calma no reajuste da previdência, no salário mínimo. Principalmente o que se discute agora esse reajuste maior para quem ganha salário mínimo na previdência. A pesquisa que fizemos mostra que a previdência acima do piso beneficia fundamentalmente a classe AB, enquanto no piso beneficia a classe D, o que já é bem melhor focado, mas o Bolsa Família beneficia menos o idoso e mais a classe E, os pobres do Brasil. O país não parece ainda acordado para esse desafio. Por outro lado, não vejo esse problema de desemprego agora. Até pouco tempo, tínhamos um apagão de mão de obra qualificada. As pessoas da terceira idade têm menos qualificação, porém penso que tiveram grandes conquistas nos últimos anos. A taxa de pobreza dos idosos era um 1/3 das crianças em 1992. Na última Pnad, foi 1/6.
Outros programas, como o PAC e o Minha Casa, Minha Vida, podem trazer esse retorno positivo que estamos falando, na aliança público e privado?
Mais ou menos. Mas tem uma questão de gestão aí. Temos problemas de gestão crônica, temos informalidade, problemas nessa malandragem do político. Precisamos olhar para os dados e quero ver resultados. O PAC é um programa que demora a acontecer no papel. Mas vamos ver os resultados. Vemos muito isso das pessoas dizerem que estão investindo aqui e ali, mas vamos esperar os resultados. Temos a vantagem hoje em dia de olhar os dados, que são públicos.
Olhando para as eleições de 2010. Qual o cenário?
Nos últimos 15 anos, tivemos dois excelentes governos apontando para a mesma direção. Por isso, meu candidato ideal se chama FHLU ou o FHULA, como preferir. O segredo foi essa continuidade da política econômica, social. O Lula com mais firmeza, o FH tendo o ônus de ser o pioneiro. Ele criou o Bolsa Escola, o Lula o Bolsa Família. Um criou o Saeb, o outro criou Prova Brasil e o Ideb. Acho que avançamos muito. O desafio é fazer a nova agenda de políticas sociais. Deve ser algo assim nem tanto ao mercado nem tanto ao estado, Caracas não é aqui, Washington também não é. A sociedade quer o caminho do meio. Se você ficar no canto, sendo muito estatizante ou privatizante, pode sofrer alguma coisa e não tem força para sair. Estando no meio, você tem uma certa mobilidade. A sociedade no fundo demandou isso. Queríamos a democracia, nos anos 1980, conseguimos, a estabilização, também. Nessa década, de certa forma, queríamos a redução da desigualdade, e conseguimos. Agora, devemos buscar a qualidade da educação. É o que espero.
A próxima década é a da educação?
É da educação de qualidade. Temos metas para 2021, embora não seja algo que soe muito aos políticos. O governo federal tem metas. A sociedade civil tem que cobrar. Temos instrumentos para não errar no caminho, para corrigir os rumos. Temos que dar os mercados aos pobres. As empresas que investiram na baixa renda, na classe C, têm excelentes resultados. Em particular em época de crise, mas falta tratarmos o pobre como protagonista, com educação, microcrédito, microsseguro. O Brasil ainda tem resistência para acordar para as coisas, mas vejo as coisas fluindo. É um país que dorme, desperta... Estávamos deitados e, de repente, começou a desigualdade cair, as coisas melhoraram.
Quais são os maiores inimigos da continuidade do crescimento e da diminuição da desigualdade?
O maior adversário talvez seja mesmo esse sentimento de comemorar antes da hora. Pode haver uma comemoração precoce. E também essa coisa de pensar que a desigualdade faz parte da paisagem brasileira. Estamos vendo que não, pois conseguimos uma elevação a preços populares. Devemos parar de ver indiferença na diferença.